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Ouroboros

A peça escultórica, constante das duas imagens que se apresentam, foi fotografada na Quinta de Rio Alcaide, um agroturismo, em Porto de Mós, a 29 de Dezembro de 1996.

A razão de ser do interesse simbólico da peça é a clara conjugação do ouroboros – a serpente mordendo a cauda – com a planta ao centro, que vamos admitir seja uma alcachofra.

Segundo o “Dictionnaire des symboles” (Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Robert Laffont, 11ª impressão, Paris, 1990, pág. 716) o ouroboros simboliza o ciclo da evolução fechado sobre si mesmo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em consequência, o eterno retorno.

A forma circular do símbolo permite ainda a interpretação de que a serpente figura o mundo infernal, enquanto o mundo celeste é simbolizado pelo círculo.

Noutra interpretação, ainda, a serpente rompe uma evolução linear, ao morder a cauda, marcando uma mudança, pelo que parece emergir num nível de existência superior, celeste ou espiritual, simbolizado pelo círculo.

A serpente mordendo o rabo, fechando-se sobre o próprio ciclo, evoca a roda das existências, como condenada a jamais escapar ao seu ciclo, para se elevar a um nível superior.

Diga-se que a roda das existências é um símbolo solar, na maior parte das tradições. A roda, ao contrário do círculo, tem uma certa valência de imperfeição, reportando-se ao mundo do futuro, da criação contínua, da contingência e do perecível.

O ouroboros é, portanto, um símbolo do perpétuo retorno, o círculo indefinido das renascenças, a contínua repetição, com uma predominância duma fundamental pulsão de morte.

Deve-se referir que o ouroboros, ou símbolos semelhantes, constam de obras alquímicas, nas quais significa “alimenta este fogo com fogo, até que se extinga e obterás a coisa mais estável que penetras todas as coisas, e um verme devorou o outro, e emerge esta imagem”. Isto, após uma fase em que pela separação se divide o um em dois, que contém em si mesmo o três e o quatro, “... é um fogo que consome tudo, que abre e fecha todas as coisas”. (cfr. Abraham Eleazar, “Uractes chymisches werk”, Leipzig, 1760, in “Alquimia & Misticismo”, Alexander Roob, Taschen, Lisboa, 1997, pág. 403).

O símbolo, em alquimia, é por vezes representado como dois animais míticos, mordendo rabo um do outro.

Registe-se ainda, na tentativa de avançar pistas para a raiz etimológica da palavra “ouroboros”, que em copta “ouro” significa “rei” e em hebreu “ob” significa “serpente”.

Se o segundo símbolo constante da nossa imagem for uma alcachofra, diga-se que esta é tida por alguns (cfr. “O esoterismo da Quinta da Regaleira”, Vitor Mendanha entrevista José Manuel Anes, Hugin, Lisboa, 1998, pág. 23) o análogo vegetal da fénix, pois após ser submetida ao calor a sua flor perde o colorido e fica totalmente branca, posto o que renasce.

Remete-se, assim, para o tema da ressurreição, que pode simbolizar o “novo” nascimento do iniciado.

Se a planta representada na figura for antes um cardo, o que nos parece menos provável, (cfr. “Dictionnaire ...”, pág. 211) estamos então perante um símbolo de algo desagradável, de defesa periférica, por ser picante, podendo ainda significar o irradiar da luz, por a sua cabeça ter um aspecto irradiante.

Nada sabemos sobre a data e a origem da escultura, mas, quanto ao contexto local, podemos referir que a quinta fica próxima do cemitério da localidade, o mesmo ocorrendo com o antigo cemitério do castelo, pelo que é de admitir que se trate de uma peça com origem funerária, a qual se adapta perfeitamente ao sentido simbólico atribuível aos elementos componentes da imagem.

Também na Lourinhã, junto à Igreja de Santa Maria do Castelo verificámos em Novembro de 2001 a presença de algumas lápides funerárias junto à fachada lateral do templo, entre as quais se encontrava uma associando o ouroboros à alcachofra. As fotografias obtidas na ocasião são as que se apresentam.

Registe-se que o cemitério da Lourinhã se situa nas imediações da igreja.